sábado, 31 de janeiro de 2015

…SÓ…


…Só… «Estar Só é Estar no Íntimo do Mundo» (1)

Estar só depois da vida em que escurece…
E essa noite de breu acontece
O fio do Tempo que assim se desenrolou…
Desse novelo de Ariadne
E a tua alma nua que desconhece
Esse labirinto mítico a que chegou
Esse naufrágio do corpo que se afunda
Nesse mar profundo e escuro
Em que se apaga essa luz bruxuleante e breve
Onde todos os vivos embarcam
Luz essa que trémula se extingue…
E desvanece…
Barqueiro que mudo nos transporta
…Para o outro mundo…
Para essa outra porta…
Que se abre…
Estar só nesse mundo outro…
Que se descobre
E por quem choram outras almas nessa prece
Pela morte que tão só se apresentou…
Mas a muitos outros te juntou…
E nessa homenagem merecida
Em que o poeta junta multidões cheias de vida
E de ensejo…
Para dessa praça larga gritarem fundo:
- «Poeta, Poeta, tu não estás só… no mundo…»
Seja pela palavra,
Pelo grito,
Pela caneta,
Pela tinta que escorre no papel preta
Pelas mãos que teus livros seguravam
Lidos por outros na ânsia da tua alma conhecer
Onde escrevias avidamente lavrando folhas
Com o teu suor e o teu próprio sangue
Nesse íntimo… do mundo inteiro em que repousas…
E assim por essas linhas caminhas
Segurando versos e eventuais rimas
Percorrendo nesse íntimo
Em que visitas esses outros que te desejam conhecer
E que um livro teu abrem para ler
Já não és corpo físico nesta terra…
Mas sim espirito e essência de poeta
Com que fazes soar forte essa trombeta,
Que ribombalha e faz esses céus tremer
Para que outros como tu escutem o que dizes
A quem e como dizes em segredo…
Segredando ao ouvido dos mortais
Todas as tuas ânsias e medos
Por saberes hoje mais…
Mais do que os restantes viventes
Por esses caminhos em que vagueias
E a tua poesia semeias
Nesses livros tão sós e imortais…

António Dôres             25/09/2013


(1) em homenagem a António Ramos Rosa

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